Vamos viajar no tempo para a região amazônica entre os anos iniciais do século XX, onde está acontecendo um período muito bom economicamente para os negócios nessa região – conhecida historicamente como a Belle Époque.
Esse movimento artístico e cultural que destacou a região como a maior produtora de borracha do mundo. Pessoas que tinham empresas, fábricas e grandes comerciantes estavam fazendo bom uso deste recurso e ganhando muito dinheiro.
A cidade de Belém do Pará, tinha um estilo
afrancesado e percebia está associação cultural através das roupas, as casas e no comportamento das pessoas, ou seja, era mais fácil ir para a Europa do que visitar o Sul do Brasil.
As coisas começaram a chegar em Belém, a exemplo é - os carros. As primeiras notícias sobre carros em Belém surgem no período da “Batalha da borracha” – 1850 a 1920, quando a cidade se modernizava rapidamente.
Enquanto isso a cidade de Macapá que estava interligada ao vizinho Estado do Pará e permaneceu nessa condição até o seu desmembramento no dia 13 de setembro de 1943.
Era um lugar pequeno, um vilarejo, com algumas
casas coloniais e sua população pouco mais de 1000 pessoas.
Assim, a história que vou contar ocorreu no início do século XX, tem a ver com carro, e com morte por doenças adquirida, uma ocorreu em Belém do Pará a outra ocorreu aqui em Macapá.
Porém, resolvi destacar esses acontecimentos devido à similaridade que ambas ocorreram e a proporção religioso que o caso tomou até os dias atuais.
A primeira é sobre Josephina Conte, conhecida como a “Mulher do táxi” que tinha 16 anos de idade e falece no ano de 1931, já a segunda é a irmã Maria Celeste, cognominada “A Santinha de Macapá”, que morreu em 1922, aos 17 anos de idade.
A história de Josephina Conte
“A história de Josephina, a Mulher do Táxi, é uma das versões mais conhecidas da lenda urbana a Mulher do Táxi, especialmente popular no Norte do Brasil, principalmente em Belém do Pará.
Nicolau Conte era um grande empresário, homem bem-sucedido que tinha várias fábricas de calçados, a fábrica em Belém era a matriz, e acima desse empreendimento ficava também a residência da família.
Ele era um pai extremamente amoroso e gostava sempre de dar presentes importantes para as filhas, zelava muito pela educação e formação dos filhos. Ele era uma pessoa bem a frente do seu tempo.
Josephina Conte era uma jovem simples, educada e muito bonita, que viveu em Belém há muitos anos. Ela era uma moça magrinha e muito pequena, segundo seu sobrinho Jorge: “ela era uma italianinha”.
Estudava em um Colégio Católica Santo Antônio, no dia do seu aniversário o qual era dia 19 de abril - o seu pai dava um presente muito especial para a garota, que era: um passeio de táxi, ou de carro de aluguel, pois na época não tinha táxi pela cidade, que se modernizava rapidamente.
Josephina levava uma vida tranquila, dedicada às suas atividades cotidianas e aos estudos, tudo parecia seguir normalmente. No entanto, de forma repentina, ainda na adolescência, começou a apresentar episódios de febre.
O estado febril, inicialmente passageiro, tornou-se diário e progressivamente mais intenso, agravando-se entre os seus 15 e 16 anos de idade.
Seu pai muito desesperado mandou sua filha moribunda a um hospital especializado, porque o médico da família disse que a infortunada menina poderia estar com tuberculose e naquela época as pessoas tinham medo de ficar próximo de indivíduos com esta doença, por causa da contaminação
E a muito contragosto seu Nicolau colocou sua filha nesse hospital - na ala de isolamento, sendo que só quem tinha direito de vê-la era as enfermeiras e os médicos que a tratava.
E infelizmente o pior acaba acontecendo Josephina Conte falece no dia 16 de agosto de 1931, aos 16 anos de idade.
A única providência que o pai pôde tomar foi organizar um velório o mais digno e bonito possível, como forma de homenagear a filha pelos seus 16 anos de vida.
Contudo, ele fez questão de que o carro fúnebre não partisse do hospital, mas sim da casa onde se localizava a fábrica, local que carregava um significado especial para a família.
O cemitério escolhido para o descanso final da garota foi o cemitério Santa Izabel, na quadra 2K na esquina das alamedas Santa Rita com a São Paulo.
O Jazigo dela é muito bonito inclusive Nicolau seu pai mandou fazer tudo na Itália, colocando uma foto acoplada no mármore da adolescente, que segundo os visitantes essa fotografia fica observando quem passa perto do mausoléu.
Ademais, após 5 anos, em 1936, começa a surgir um certo burburinho na comunidade.
- Um “taxista” tinha chegado na casa do seu Nicolau com a família, onde estes estariam almoçando.
“Bom, eu levei sua filha do cemitério de santa Izabel até a Basílica e nós conversamos e ela disse que era para eu passar aqui, para eu receber com o senhor”.
Seu Nicolau por sua vez pergunta para sua outra filha: - vocês foram ao cemitério?
E elas disseram não!
O taxista olha as fotos dos integrantes da família na parede. Nesse momento ele olha e dá de cara com a foto da mocinha Josephina e aponta e diz:
“- Foi essa moça aqui”!
Seu Nicolau ficou espantado e diz o seguinte: ela não está mais aqui!
O homem ficou sem graça, envergonhado, com toda esta situação, talvez também assustado. Ficou no ar, que de repente, estou cobrando de alguém que se foi, posso ter me enganado e estou deixando essas pessoas tristes e constrangidas.
Desse dia em diante as pessoas não param de falar dos passeios da Senhorita Josephina Conte no dia do seu aniversário em todos os anos
Com o passar do tempo, esse acontecimento deu origem a uma lenda que foi se consolidando e se ampliando. Paralelamente, também cresceu a fé das pessoas no poder que a adolescente Josephina possuía de operar milagres.
Josephina Conte se tornou uma santa popular, onde pessoas alcançam graças, inclusive muitos acham que o Vaticano deveria ter um olhar especial a donzela e a ter um lugar entre os santos católicos.
As pessoas contam que a menina foi embora pura, que não tinha se casado e que os fiéis alcançam graças através dela.
Diante desse fato, a quantidade de pessoas que acendem vela, não é fácil, a ponto de ocorrer princípio de incêndio no Cemitério - onde existe casos de ocorrências que os bombeiros foram acionados a fim de apagar o fogo no túmulo".
As aparições
Alguns taxistas relatam que, durante a madrugada, uma mulher vestida de branco entra silenciosamente no veículo e pede, com voz serena:
— “Pode me levar até tal endereço?”
Ela se apresenta como Josephina.
Durante o trajeto, a passageira fala pouco, mantém o olhar baixo e transmite uma profunda sensação de tristeza.
Ao chegar ao destino indicado, os relatos variam: em alguns casos, a mulher desaparece repentinamente do interior do táxi; em outros, solicita ao motorista que informe à família sobre sua chegada.
Quando o taxista se dirige à casa mencionada, alguém atende à porta e, ao ouvir o nome Josephina, reage com espanto:
— “Minha filha morreu há muitos anos…”
Em alguns relatos, a família chega a mostrar uma fotografia antiga, na qual o motorista reconhece imediatamente a passageira que havia acabado de transportar.
Para muitos moradores, Josefina não é apenas uma aparição, mas um símbolo profundo da saudade, da dor causada por uma perda inesperada e das histórias silenciosas que a cidade preserva em sua memória coletiva.
A lenda também cumpre uma função normativa, sendo interpretada como um alerta aos motoristas quanto à prudência durante o trabalho noturno e à necessidade de respeito diante de solicitações de ajuda.
Nesse sentido, observa-se que alguns taxistas evitam determinados trajetos durante a noite, influenciados pelo temor de um possível reencontro com a personagem conhecida como - “A Mulher do Táxi”.
A história da Irmã Maria Celeste - "A Santinha de Macapá"
A história da "Santinha de Macapá" é um relato biográfico e espiritual, muito conhecido nos meios católicos, especialmente no Norte do Brasil. A obra foi escrita pelo Padre Júlio Maria Lombaerde, com o objetivo de preservar a memória e o testemunho de fé dessa jovem religiosa.
Filha do casal João de Azevedo Coutinho e Ana Siqueira Coutinho seu nome de nascimento era Raimunda de Siqueira Coutinho (alcunhada na Congregação de Irmã Maria Celeste).
Ingressou na “Congregação das Filhas do Coração Imaculado de Maria” em 1920, quando tinha 15 anos de idade. Como noviça, a jovem adotou o nome de Irmã Celeste, a quem o Padre Júlio Maria Lombaerd chamava de “Anjo da Eucaristia”, porque ela comungava diariamente.
Nasceu em Macapá, Estado do Pará, aos 28 de abril, em 1905 e faleceu a caminho de Belém - no dia 7 abril de 1922”, ela foi sepultada em uma ilha - chamada “Ilha dos Macacos” e após dois anos levaram seus restos mortais para Caucaia no Ceará.
Irmã Maria Celeste foi uma benção para a Congregação, todos gostavam dela “era filha do coração abrasado de Padre Júlio Maria”, era muito generosa, uma fortaleza de espiritualidade inapagável de amor e sacrifício.
A jovem religiosa se dedicava no serviço diário da incipiente congregação, ajudava a auxiliar os membros da comunidade com seus conselhos espirituais.
Para entendermos como ocorreu esse dia de pranto, se faz necessário perceber o contexto histórico e social da cidade de Macapá
Pois, em 1922, na cidade, assolou uma grande febre, impaludismo e malária, essa moléstia deixou acamado a infortunada noviça e cada dia a febre só fazia aumentar, deixando-a abatida.
Os remédios da farmácia dados por Padre Júlio não estavam causando nenhum efeito, os dias foram avançando e a jovem e meiga religiosa ficava cada vez mais debilitada, até que um dia ela não resistiu e veio a falecer.
Na Instituição todos ficaram muito afligidos, principalmente porque a jovem irmã era muito querida, a noviça faleceu aos 17 anos, em 1922 e passou apenas dois anos na Congregação Filhas do Coração Imaculado de Maria (FCIM).
Irmã Maria Celeste entregara ao Criador sua alma virginal ainda muito jovem, fato que provocou profunda comoção entre aqueles que a conheceram.
Sua morte não foi interpretada como uma derrota, mas como a consumação de uma existência plenamente entregue a Deus.
Após sua partida, multiplicaram-se os relatos de fiéis que afirmavam experimentar uma forte impressão de santidade, encontrar inspiração espiritual ao conhecer sua trajetória e vivenciar um crescimento na devoção e no amor à Eucaristia.
O próprio padre que a tinha como filha espiritual, passou por uma cura milagrosa que a dedicou a cura através da intercessão da irmã Maria Celeste.
E como procedeu esta cura?
Padre Júlio Maria Lombaerde, era belga e chegou em
Macapá, no dia 27 de fevereiro de 1913, para assumir como Vigário da paróquia
da cidade.
Sempre se dedicou a proporcionar uma melhoria na
condição da vida dos moradores da pacata cidade, ou era através da educação ou
através dos cuidados da saúde.
Mas, após cuidar da saúde de tantas pessoas, quando
veio adoecer quem cuidaria da sua?
Mesmo combalido e abatido, o eclesiástico não
interrompeu sua missão: permaneceu firme na evangelização e na celebração das
missas. Com o passar do tempo, porém, a enfermidade se agravou.
À febre incessante provocada pela malária somaram-se
grandes feridas na perna esquerda, que lhe causaram intenso sofrimento.
Mesmo assim, no dia 3 de abril de 1922, não hesitou em
acompanhar, a bordo do navio “São Pedro”, a jovem religiosa, que jazia
enferma em um camarote estreito.
Necessitando de cuidados médicos disponíveis apenas em
Belém, Irmã Maria Celeste foi então embarcada no pequeno navio, contando com o
acompanhamento do sacerdote Júlio e da Superiora Geral da Congregação.
No dia 7 de abril ela faleceu a bordo da embarcação, na primeira
sexta-feira do mês, sendo sepultada no cemitério de uma pequena comunidade
existente em uma ilhota do arquipélago do Marajó, no Rio Pará (canal sul do Rio
Amazonas) próximo a Belém.
Assim, após o enterro da irmã Maria Celeste o ministro
de Deus Júlio Maria prosseguiu viagem, pois precisava de tratamento contra a
terrível ferida que tinha na perna esquerda e que apresentava sinais de
gangrena.
Ao consultar o médico Remígio Fernandes, o vigário de
Macapá foi informado de que, se a lesão não recrudescesse fatalmente sua perna
seria amputada.
Padre Júlio retornou a Macapá e passou a rogar pela
interveniência de Irmã Celeste junto a Maria Santíssima. Milagrosamente a
ferida cicatrizou.
Nesse sentido, seu testemunho permanece como
referência formativa para jovens, religiosos e fiéis leigos, evidenciando que a
santidade pode ser vivida de modo concreto e acessível, na simplicidade das
práticas cotidianas.
Morte e legado espiritual
• forte
impressão de sua santidade,
• inspiração
espiritual ao conhecer sua história,
• crescimento
da devoção e do amor à Eucaristia.
Seu testemunho continua sendo apresentado como exemplo
para jovens, religiosos e fiéis leigos, mostrando que a santidade é possível na
simplicidade do dia a dia.
“O Santo Padre Bento XV prometeu
canonizar a noviça que, durante todo o tempo de Noviciado, cumprisse
perfeitamente as regras do seu Instituto”
1. Semelhanças entre Irmã Maria Celeste e Josephina
Conte
Apesar de pertencerem a contextos distintos, há pontos
importantes em comum:
🔹 Juventude
interrompida
Josephina Conte, conhecida como a “Mulher do Táxi”, e
Irmã Maria Celeste – “Santinha de Macapá” apresentam notáveis pontos de
convergência em suas trajetórias.
Ambas morreram muito jovens, vítimas de enfermidades
graves — Josephina Conte em decorrência de uma febre perniciosa, e Irmã Maria
Celeste em consequência de uma hepatite aguda.
Apesar da brevidade de suas vidas, o impacto
espiritual que deixaram foi profundo e duradouro. Com o passar do tempo, as
duas passaram a ser reconhecidas pelo povo como santas populares, associadas
a relatos de graças alcançadas e intercessões atribuídas às suas memórias.
Assim, mesmo fora de um reconhecimento oficial da
Igreja, suas histórias permanecem vivas na devoção popular, marcadas
pela fé, pela esperança e pelo consolo oferecido àqueles que recorrem a elas.
2. Diferenças principais
✝️ Irmã Maria
Celeste – memória religiosa e espiritual
- Viveu conscientemente sua fé cristã.
- Enfrentou a doença com resignação, oração e
entrega a Deus.
- Sua morte foi interpretada como testemunho de
fé e união com Cristo.
- Ficou conhecida como “Anjo da Eucaristia”,
inspirando devoção, reflexão e vida cristã.
👉 Sua história
está ligada à esperança, à santidade e à vida eterna.
🚕 Josephina Conte
– memória popular e lenda urbana
- Jovem comum do povo, sem registros oficiais
detalhados.
- Sua morte pela tuberculose, segundo a tradição
oral, gerou tristeza e mistério.
- Com o tempo, sua história foi transformada na lenda
da Mulher do Táxi.
- Sua figura aparece como alguém que não
conseguiu concluir seu último caminho.
👉 Sua história
simboliza a saudade, a perda e o medo do desconhecido.
Considerações Finais
A comparação evidencia uma mesma realidade — a
juventude interrompida pela morte — pode adquirir significados distintos,
conforme a forma como a vida foi vivida e posteriormente lembrada.
Irmã Maria Celeste transformou o sofrimento em
testemunho de fé e em exemplo de santidade, enquanto Josephina Conte
teve sua trajetória transfigurada em lenda, expressão do medo, da saudade e do
imaginário popular.
Em ambos os casos, a sociedade buscou
atribuir sentido à morte precoce: seja pela via da fé, seja pelo caminho do
mistério.
Assim, tanto Josephina Conte quanto Irmã Maria Celeste
passaram a ser associadas, no imaginário popular e religioso, à ideia de
cura e de graças alcançadas.
Contudo, essa crença manifesta-se de formas distintas:
em Maria Celeste, a cura está ligada à devoção, à oração e à confiança em sua
intercessão; em Josephina Conte, surge envolta no caráter simbólico e lendário,
marcado pela tradição oral e pela aura de mistério que cerca sua história.
Um fato simples.
Você vai morrer!
Apesar de todos os esforços, ninguém vive para sempre.
Desculpe ser desmancha-prazeres!
Meu conselho é: quando sua hora chegar, não entre em pânico.
Parece não adiantar.
By Márcio Carrera Costa
Referências
LOMBAERDE, Padre Júlio Maria. Um anjo da eucaristia. Belo Horizonte: O lutador, 1925.
RODRIGUES, joice. Ler até Amanhecer: O Espirito que anda de táxi no dia do aniversário. Disponivel em: <https://www.youtube.com/watch?v=OoEpgiN6yKo&t=878s> Acesso em 28 de dezembro de 2025.
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