sábado, 13 de abril de 2013

Fato inusitado de Padre Júlio em Macapá



Era um dia de chuva, a praça matriz e as acanhadas ruas estavam um lamaçal, o dia era um domingo de páscoa, as horas avançavam e já se aproxima o crepúsculo noturno, mas uma leve garoa ainda insistiu em cair no município de Macapá. As mangueiras que rodeavam a praça matriz neste dia chuvoso estavam inertes devido à falta do vento, o Zé da Lamparina se aparelha para acender os lampiões que estão em frente à paróquia, os regatões que aportaram no final da tarde na Doca da Fortaleza, descarregavam as últimas mercadorias de seu “batelão” e se despedem de mais um dia de trabalho, acertando com os companheiros para tomar uma cachaça logo mais, para se distrair. 
Padre Júlio Maria de Lombaerde



O comerciante Leão Zagury começa a fechar o armazém, Casa Leão do Norte e se deslocar para Praça de São Sebastião. O mastro com a bandeira do Divino Espírito Santo já esta hasteada.  Próximo dali, seu Julião Thomaz Ramos (mestre Julião) juntamente com a sua comunidade afro descendente aquecem os tambores para mais uma apresentação de Marabaixo (folguedo é uma manifestação musical elaborada a partir das referências do catolicismo popular), realizada na Praça matriz, local de encontro da cidade. 

Imagem da Igreja de São José de Macapá em 1918
Dentro da igreja Padre Júlio já está finalizando a missa, distribuindo a benção apostólica. A comunidade negra se aproxima e arrisca um breve jogo de capoeira, esperando o rufar dos tambores dos praticantes do Marabaixo. O pároco Padre Júlio se desloca a casa paroquial, bem ao lado da igreja, e começa tirar a sua estola quando de repente mestre Julião chegou para pegar da coroa de prata do divino espírito santo, pois, esta ficava de um dia para o outro para receber a benção. O padre belga nunca aceitou a festividade do Marabaixo, para este, era uma festa profana, “elas não passavam de batuque e bebedeira, com exploração de dinheiro, mediante a apresentação da coroa de prata do Espírito Santo, conhecida como Divino” (CAVALIERI, 1981, p.15). Então, o padre para acabar com esse alarido resolve quebrar a coroa de prata do Divino e mandou um dos coroinhas entregarem os pedaços ao festeiro. 

A revolta foi tanta que os festeiros cogitaram invadir a casa do padre para espancá-lo, todos os brincantes portavam porretes de madeira nas mãos e, insuflados por Julião Ramos, foram se posicionar na frente da casa do padre, situado na Rua São José. Enfurecida, a turba continuou gritando palavras hostis ao eclesiástico, os alunos que lá residiam para estudar e ser catequizado se armaram (facas, rifles, cacetes) para impedir essa tragédia. Nessa altura a brincadeira na praça já tinha tomado a todos com certo ar de preocupação, o intendente Cel. Teodoro Manuel Mendes foi acionado para conter os ânimos dos festeiros.   
Diversos residentes da cidade simpáticos ao vigário acompanharam a situação com certo pesar, pois o missionário era muito querido pelos populares. Essa estimação veio através do tratamento oferecido aos necessitados e pobres da localidade, haja vista que a comunidade não tinha nenhuma estrutura de atendimento médico, e grande maioria do povo sofria de malária, úlceras, gripes, pneumonia; o padre por ter conhecimento básico de medicina, se dispôs a cuidar da saúde dos moradores.       

REFERÊNCIAIS
CAVALIERE, Ivan Fornazier. Padre Júlio Maria Lombarde na memória do povo de Macapá. Juiz de Fora - MG: Gráfica Floresta LTDA, 1981.  
 


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